A emissão de títulos do Tesouro IPCA+ com vencimento previsto para 2032, oferecendo retornos superiores a 8%, representa uma chance excepcional para os investidores, que têm a possibilidade de adquirir um ativo considerado “livre de risco” por ser emitido pelo governo.
Além de fornecer proteção contra a inflação, ao final do período de maturação, o investidor pode ver seu capital crescer cerca de 60%. Porém, será que esses títulos são realmente livres de riscos?
A elevada taxa de retorno disponível atualmente é reflexo da desconfiança do mercado financeiro em relação à habilidade do Tesouro Nacional para honrar suas emissões – o que se traduz em um prêmio pelo risco fiscal. Esse cenário leva os investidores a questionar a segurança dos investimentos. Embora existam riscos, a possibilidade de um calote não é uma preocupação imediata.
Ainda que tecnicamente o governo possa deixar de cumprir suas obrigações financeiras, essa situação é vista como extremamente improvável pelos especialistas do mercado.
Isto se deve ao fato de que o Tesouro Nacional possui a capacidade de emitir moeda para quitar suas dívidas, o que resultaria em uma transferência do problema para a inflação.
Um calote por parte do governo é mais prejudicial do que lidar com a inflação, pois isso significaria o fechamento de portas para novos financiamentos. O governo não conseguiria captar recursos junto a novos investidores, sejam pessoas físicas ou jurídicas, ou mesmo outros países.
Guilherme Almeida, responsável pela área de Renda Fixa da Suno Research
No mês de abril, vale lembrar que o Tesouro Nacional efetuou emissões em eurobonds e está agora planejando realizar uma emissão em moeda chinesa.
“A repercussão negativa da falta de pagamento é maior do que os efeitos inflacionários resultantes da emissão monetária”, complementa Almeida.
Riscos e Vantagens
E se os juros ultrapassarem minha taxa?
A principal preocupação para quem opta pelos títulos Tesouro IPCA+ é o cenário onde as taxas possam subir ainda mais. Isso gera o (1) risco de mercado, pois o valor dos papéis adquiridos pode cair. Isso resulta em prejuízos para quem precisar vender os títulos antes do prazo estabelecido.
Ainda que não esteja no foco atualmente, taxas reais na casa dos 9% não são impossíveis caso as desconfianças fiscais continuem sem uma solução clara por parte do governo sobre seus gastos.
No momento, o cenário segue como esperado em anos eleitorais, com medidas do governo voltadas ao estímulo econômico através da concessão de crédito e aumento das despesas para favorecer sua imagem perante os eleitores.
Possibilidade do IPCA+ atingir 9%
João Debom, sócio da Alude Capital, salienta que o Brasil tem um histórico notório de procrastinação em questões fiscais. Portanto, ele acredita que as taxas atuais já refletem um certo receio quanto à possibilidade de um futuro governo adiar novamente as reformas necessárias nas finanças públicas.
No entanto, Debom considera plausível a chance do IPCA+ alcançar 9%. “Isso ocorreria caso houvesse uma deterioração fiscal mais acentuada do que se imagina, um aumento real dos juros nos Estados Unidos, ou uma crise de confiança ligada ao clima eleitoral em 2026.”
É crucial considerar também que fatores externos influenciam esse cenário; juros altos nos EUA podem reduzir investimentos em mercados emergentes e pressionar o dólar, intensificando a inflação e limitando as ações do Banco Central na redução da Selic.
A expectativa atual é que o governo enfrente esses desafios no próximo ano.
Nossas projeções indicam que as despesas obrigatórias – incluindo Previdência e benefícios assistenciais – podem alcançar níveis extremos, superando os limites orçamentários. Isso demandará algum tipo de ajuste nas contas;
Pedro Vendramini, sócio e diretor de investimentos da One Wealth
Ainda assim, Guilherme Almeida observa que a taxa média real dos títulos IPCA+ desde 2003 gira em torno de 5,76% ao ano.
Essa média abrange todos os prazos e momentos críticos como crises econômicas e políticas. Atualmente, as taxas acima dos 8% estão significativamente acima dessa média histórica – dois desvios padrão – indicando uma percepção estatística sobre possíveis problemas fiscais graves.
<p“Acredito que o mercado esteja precificando uma eventual falta de resolução desse desafio estrutural nos próximos três ou quatro anos”, conclui Almeida.
O tempo precisa ser considerado. Posso abrir mão desse dinheiro?
Neste contexto incerto, o tempo torna-se um elemento crucial para os investidores. Os preços dos títulos mudam até sua maturidade; assim sendo, quanto maior for o prazo até vencimento, maior será o risco associado. Portanto, não adianta obter taxas reais atrativas como 8% ou até 9%, se houver necessidade urgente desse capital dentro de dois anos.
Dessa maneira, especialistas aconselham os investidores a alinhar suas alocações financeiras com suas necessidades futuras. Isso introduz um segundo tipo conhecido como (2) risco de liquidez.
Em resumo, é vital investir valores que possam ficar aplicados por vários anos sem falta deles.
<p“Quando um investidor decide bloquear taxas por períodos prolongados, ele está implicitamente mais otimista sobre o futuro econômico”, observa Almeida.
Pede-se atenção também ao problema relacionado à liquidez. Neste momento, um título atrelado ao CDB (Certificado de Depósito Interbancário), com taxa básica fixada em 14,25% ao ano oferece retornos reais próximos a 10%, mesmo com inflação à casa dos 5%.
<pIsso implica que quem optar por papéis prefixados ou atrelados ao IPCA+, mesmo com vencimentos prolongados estará abrindo mão da disponibilidade imediata desses recursos enquanto poderia obter rendimentos superiores sem enfrentar riscos no mercado.
<p“Assim sendo, quem escolher essas opções terá menos flexibilidade na aplicação atual com garantias melhores até 2032”, adverte Vendramini.
O que fazer após meu título vencer?
Cabe destacar outra vulnerabilidade relacionada à diferença entre as taxas oferecidas pelos títulos curtos e longos do Tesouro IPCA+. No presente momento, os papéis com vencimento em 2032 estão oferecendo taxas superiores a 8%, enquanto aqueles com vencimentos mais distantes (2040 e 2050) ficam acima dos 7%, ainda considerados elevados historicamente.
Tais diferenciais levam muitos investidores a direcionar seus recursos para os papéis com vencimento em 2032 devido à taxa nominalmente superior.
No entanto essa estratégia ignora que um prazo menor significa travar juros atrativos por menos tempo; enquanto um título mais longo proporciona benefícios maiores devido à composição dos juros ao longo delongos períodos.
Adicionalmente há outra consideração: quando vencerem os títulos de 2032 haverá necessidade da reaplicação do capital sob condições incertas no mercado, podendo encontrar taxas menos vantajosas comparadas às atuais.
Ainda vale ressaltar que a atual taxa cobrada pelo Tesouro Nacional está próxima aos 8%, algo insustentável no longo prazo sob perspectiva fiscal devido às altas despesas relacionadas aos juros da dívida pública.
<pDessa forma,o investidor corre o risco associado ao (3) reinvestimento, onde poderá não encontrar oportunidades tão favoráveis quanto as atuais no futuro próximo para realocar seu capital adequadamente.
Sendo assim especialistas sugerem fortemente que aqueles com objetivos financeiros no longo prazo diversifiquem seus investimentos entre diferentes prazos ao invés de concentrar suas posições nas opções com maior taxa aparente.
Os riscos políticos associados ao risco soberano
<pEmbora haja uma percepção geral sobre o risco soberano , quase como garantia contra calotes aos investidores,(4) interferências políticas dentro das decisões técnicas das instituições financeiras também fazem parte desse conjunto complexo de incertezas.
<pDurante a gestão Dilma Rousseff na presidência e Alexandre Tombini na liderança do Banco Central houve pressões políticas nas decisões relacionadas às taxas juros sem respaldo técnico adequado.
<pO mercado captou esse sinal institucional elevando os prêmios exigidos nas emissões da dívida pública naquele período.Resultando numa persistente alta das taxas,depois culminando na saída de Tombini e posteriormente no impeachment da então presidente Dilma Rousseff .
<pPara aqueles já investidos em títulos públicos tal movimentação pode ser prejudicial poisa alta nas taxas pressiona negativamente os preços dos papéis gerando perdas temporárias aos investidores necessitados venderem antes do vencimento .
<pComo fica evidente ,títulos governamentais considerados livres desses riscos realmente apresentam diversos riscos inerentes aos investimentos realizados .
Ganhando substancialmente acima da inflação
No caso específico dos IPCA+, existe uma vantagem: garantir aos investidores dispostos a manter seus papéis até a maturidade rendimentos reais consideráveis acima da inflação nas condições atuais encontradas no mercado .
<p“Com prêmios superiores a 7% ou 8%, essa rentabilidade real possui impacto significativo.A média histórica referente ao IPCA das últimas duas décadas gira entorno dos 6% anuais”, menciona Matteo Garofalo,sócio e gestor da EWZ Capital .
Tais taxas reais acima dos 7 ,5% apareceram raramente (menos que10%) na última década ,observa João Debom .
<p“Para aqueles com horizonte prolongado ,que não precisarão acessar esses recursos antes do vencimento ,travar ganhos reais próximos aos8 ,5% anuais representa uma oportunidade singular,” finaliza Debom .