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Itaúnas: O Beiju e a Tradição das Mulheres Quilombolas do Sapê do Norte

Permínia, Dentina, Lady Diana e Dona Beatriz no Quilombo do Angelim 1, em Itaúnas

Na farinheira do Quilombo do Angelim I, em Itaúnas, distrito de Conceição da Barra, Norte do Espírito Santo, o fogo permanece aceso por um motivo que vai muito além de assar beijus. Entre o cheiro da mandioca, o coco ralado e o café passado na hora, mulheres quilombolas preservam uma herança ancestral feita de resistência, memória, território e afeto.

O beiju preparado por Claudentina, Beatriz e Permínia no território, conhecido como Sapê do Norte, carrega tradição e sobrevivência.

“Terminei de criar meus quatro filhos com beiju”, conta Permínia, conhecida como Pepê, beijuzeira do Quilombo Santa Isabel. Viúva aos 38 anos, ela encontrou na prática aprendida ainda criança uma forma de sustentar a família. “Meus filhos iam de bicicleta vender beiju em Itaúnas. Assim eu criei meus filhos.”

No Sapê do Norte, território histórico de comunidades quilombolas entre o Norte capixaba e a divisa com a Bahia, o beiju é tratado como alimento sagrado. Por lá, além de ser referência culinária por conta das variadas possibilidades de recheios, além da tradição, o beiju representa continuidade.

“Eu aprendi com minha mãe. E não sei ficar sem fazer”, diz Beatriz, de 73 anos, nascida e criada no Angelim. “O beiju conquista quem aprende.”

Ao redor do forno quente, as histórias se misturam ao movimento das mãos da iguaria (com sabor de abraço de vó) que moldam a goma da mandioca em diferentes formatos: beiju de roda, de fate, de cartucho e pamonha de mandioca enrolada na folha de bananeira.

Yhuri Nóbrega e Dona Beatriz

Cada receita guarda uma técnica transmitida entre mães, tias, primas e filhas. “É um trabalho familiar”, resume Pepê. “Quando a gente aprende, pega amor.”

Uma tradição moldada pela resistência

No Angelim, é impossível de beiju sem contar a história da própria formação dos quilombos.

Aos 77 anos, Claudentina, conhecida como Dona Dentina, relembra que os territórios quilombolas nasceram da fuga e da resistência de negros escravizados. “Eles atravessavam o rio e aqui ficou como esconderijo”, conta. “Se ‘ajuntavam’ com os indígenas no mato para evitar morrer, apanhar e trabalhar de graça pros outros.”

Dona Dentina Matriarca e beijuzeira do Quilombo do Angelim 1

Para ela, foram essas comunidades que preservaram o território, os rios, os saberes e os modos tradicionais de viver. “Onde tem quilombo, tem preservação da natureza, tradição e cultura.”

A ligação entre povos indígenas e quilombolas permanece viva em Itaúnas.

Lady Diana Souto, remanescente quilombola, filha de Dona Beatriz e integrante do Programa Caiman, do Instituto Marcos Daniel, explica que registros históricos já apontavam essa convivência entre negros e indígenas na região. “Essa mistura está nessa iguaria. A mandioca é fonte de vida tanto para os indígenas quanto para os negros.”

Para Diana, o beiju representa a confluência de saberes ancestrais que resistiram ao tempo e seguem alimentando o presente.

O sabor que atravessa gerações

A produção começa muito antes do forno.

A mandioca é plantada, colhida meses depois, raspada, lavada, ralada, prensada e transformada em goma. Só então o beiju começa a ganhar forma.

Na farinheira, o trabalho é coletivo. As mãos que espalham a goma no forno repetem movimentos aprendidos ainda na infância. Algumas mulheres preferem usar peneira. Outras fazem diretamente com as mãos, mesmo diante do calor.

Entre uma fornada e outra, surgem lembranças das mães levando pratos de beiju para parentes, das crianças crescendo dentro das farinheiras e das famílias reunidas em torno do café.

Mais do que comida

Em Itaúnas, o beiju se tornou símbolo de permanência.

Enquanto as dunas atraem turistas para o litoral norte capixaba, mulheres quilombolas seguem mantendo viva uma cultura construída longe dos cartões-postais, mas profundamente ligada à identidade do território.

“Não deixem morrer a nossa tradição”, pede Claudentina.

O convite permanece aberto no Quilombo do Angelim. Ali, cada beiju servido carrega memória, luta e ancestralidade. Um alimento simples, atravessado por séculos, que continua contando, pelas mãos das mulheres quilombolas do Sapê do Norte, a história de um povo que resistiu.

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