*Artigo escrito por Gleiciane Kempim, Analista de Operações e Negócios no Sicoob Central ES e Diretora Financeira do IBEF Academy.
Se o primeiro passo da revolução gerada pelos criptoativos foi romper o monopólio estatal sobre a emissão de moeda, o segundo é compreender que liberdade financeira não existe sem responsabilidade. Esse novo ecossistema, que movimenta trilhões de dólares, é moldado por forças tecnológicas, econômicas e regulatórias que testam diariamente o equilíbrio entre autonomia individual e proteção institucional.
Para entender o impacto dessa transformação, é preciso lembrar a essência do dinheiro. Ele não nasceu como nota ou saldo bancário, mas como mercadorias de valor intrínseco, como metais, conchas, sal, etc. Com o tempo, a sociedade percebeu que algo tem valor porque todos acreditam que tem. O dinheiro é, antes de tudo, um pacto de confiança. E quando essa confiança se rompe, o valor desaparece.
Os criptoativos nascem da mesma lógica. O Bitcoin, o seu principal representante, possui oferta limitada (21 milhões de unidades) e valor definido pela percepção de mercado, sem emissor soberano capaz de estabilizá-lo. Essa liberdade traz um custo: volatilidade. Alguns economistas defendem que se trata de uma “bolha” sem fundamentos sólidos. Já sob a ótica liberal, essas flutuações são o preço natural de um mercado livre, guiado pela crença e pela escolha dos indivíduos.
Nos criptoativos, cada pessoa é dona dos seus próprios recursos, sem intermediários, mas também sem garantias de resgate. Perdeu a chave, perdeu o ativo. É a materialização do princípio liberal, quem detém o poder, assume o risco. Essa estrutura oferece uma alternativa de propriedade digital privada, redução da interferência estatal e possibilidade de transações globais sem fronteiras, um verdadeiro exercício de liberdade econômica.
A ascensão desse mercado chama a atenção de governos e instituições. Estima-se que Estados ao redor do mundo detenham juntos mais de 460 mil bitcoins, com destaque para os EUA e El Salvador. Paralelamente, cresce o movimento regulatório. A União Europeia criou o MiCA – Markets in Crypto-Assets, os Estados Unidos intensificam disputas via Securities and Exchange Commission – SEC, e o Brasil aprovou a Lei nº 14.478/2022, conhecida como o Marco Legal das Criptomoedas, que delega ao Banco Central a supervisão do setor.
O desafio está em como equilibrar transparência e liberdade. Regulação em excesso ameaça a descentralização que sustenta os criptoativos. O ideal é que o Estado estabeleça regras de funcionamento, mas não interfira na decisão individual de investir, que regule o “como”, e não o “se”.
Aos poucos, o sistema financeiro tradicional passa de adversário a participante. Fundos soberanos, empresas e instituições multilaterais estudam formas de integrar a lógica cripto às finanças convencionais. A história mostra que a inovação financeira sempre gerou resistência: o papel-moeda foi visto como artifício, o cartão de crédito como ameaça, o banco digital como risco. Hoje, a blockchain é apenas o próximo capítulo dessa transformação.
Os criptoativos desafiam a centralização e reforçam que o valor deve nascer do mercado, não da autoridade. Mas descentralizar é também distribuir responsabilidade. Para os defensores do livre mercado, isso é virtude, não risco. Afinal, não há liberdade sem escolha, nem escolha sem consequência. O futuro das finanças pertencerá a quem souber equilibrar tecnologia, confiança e responsabilidade individual e compreender que a verdadeira liberdade financeira sempre vem acompanhada do dever de sustentá-la.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.