Entre os corredores, é mais comum do que se imagina sentir dor abdominal, vontade urgente de evacuar, náuseas e desconforto intestinal durante treinos e competições. Esse fenômeno é tão recorrente que foi nomeado na literatura esportiva como runner’s diarrhea, ou “diarreia do corredor”.
É importante destacar que esse problema não ocorre apenas devido a uma alimentação inadequada. Durante atividades físicas intensas, especialmente em corridas prolongadas, o corpo experimenta mudanças fisiológicas significativas que impactam diretamente o funcionamento intestinal.
O que acontece no organismo?
Durante a corrida, o sistema circulatório redireciona o fluxo sanguíneo para os músculos, coração e pulmões. Como resultado, o trato gastrointestinal recebe menos sangue e oxigênio temporariamente. Essa diminuição na perfusão intestinal pode prejudicar a digestão, a absorção de nutrientes e a integridade da mucosa intestinal, resultando em sintomas como cólicas, inchaço, refluxo e diarreia.
Além disso, o impacto repetido durante a corrida aumenta a motilidade intestinal, acelerando o trânsito gastrointestinal. A intensidade e duração da atividade física estão diretamente relacionadas ao aumento do estresse gastrointestinal.
A alimentação pode piorar muito o quadro
Muitas vezes, há uma falha significativa nas estratégias nutricionais utilizadas pelos corredores. Um erro comum entre atletas amadores é ingerir grandes quantidades de carboidratos imediatamente antes ou durante as competições sem uma adaptação prévia adequada.
Géis energéticos, isotônicos e suplementos esportivos podem agravar os sintomas quando utilizados sem um planejamento apropriado. O excesso de carboidratos durante a atividade física pode ultrapassar a capacidade de absorção do intestino, especialmente se apenas um tipo de açúcar for utilizado.
Uma questão técnica relevante envolve os transportadores intestinais. A glicose e a frutose dependem de diferentes vias para serem absorvidas: enquanto a glicose utiliza principalmente o transportador SGLT1, a frutose depende do GLUT5.
Quando há um excesso de glicose ou uma proporção inadequada dos carboidratos consumidos, esses transportadores podem se saturar. O carboidrato não absorvido permanece no intestino, provocando um efeito osmótico que atrai água para dentro do trato gastrointestinal. Isso pode resultar em distensão abdominal, desconforto e diarreia.
Dessa forma, muitos suplementos modernos combinam glicose e frutose em proporções específicas; uma das mais comuns é 2:1. Essa abordagem amplia a capacidade total de absorção intestinal ao ativar múltiplos transportadores simultaneamente, reduzindo assim o risco de desconforto gastrointestinal durante treinos longos.
O intestino também precisa ser treinado
Outro equívoco frequente é experimentar novos suplementos pela primeira vez no dia da prova. O que funciona para um atleta pode não ter os mesmos efeitos em outro.
O intestino humano é único e pode ser “treinado”. Assim como os músculos e o sistema cardiovascular se adaptam ao exercício físico, o trato gastrointestinal também pode desenvolver maior tolerância à ingestão de carboidratos durante atividades físicas quando essa estratégia é introduzida gradualmente nos treinos.
Por isso, praticar uma estratégia nutricional adequada é tão essencial quanto aperfeiçoar o ritmo da corrida.
Onde entra a tecnologia hidrogel?
A tecnologia hidrogel tem ganhado destaque entre atletas de endurance nos últimos anos e está presente em certos géis energéticos.
Nestes produtos, os carboidratos são encapsulados em uma matriz gelatinosa que ajuda a minimizar o contato direto com o estômago até chegarem ao intestino, melhorando assim a tolerância gastrointestinal para alguns usuários.
Embora isso não elimine completamente os sintomas incômodos, muitos atletas relatam experimentar menos desconforto durante exercícios prolongados. No entanto, ainda não existe uma solução ideal; mesmo os suplementos mais modernos precisam ser testados individualmente nas sessões de treino.
Desidratação também aumenta o risco
A hidratação insuficiente é outro fator crucial. Quanto mais desidratado estiver um atleta, maior será o estresse fisiológico enfrentado pelo corpo e mais severa poderá ser a função intestinal durante as atividades físicas.
Além disso, temperaturas elevadas e competições mais longas aumentam ainda mais as chances de surgimento de problemas gastrointestinais.
Estratégia nutricional também é performance
Evitar a “diarreia do corredor” envolve muito mais do que escolher um gel energético adequado. É fundamental ajustar tanto a quantidade quanto o tipo de carboidrato consumido, assim como os horários da ingestão e considerar a tolerância individual.
No caso de atletas que apresentam sintomas frequentes relacionados ao trato gastrointestinal, contar com acompanhamento de um nutricionista esportivo pode fazer toda diferença na performance atlética bem como no conforto e saúde intestinal.