O setor da construção civil no Brasil enfrenta um dilema significativo. Apesar do país ter um déficit habitacional aproximado de seis milhões de residências e uma infraestrutura que demanda investimentos crescentes, a produção atual é inferior àquela registrada há trinta anos. A questão não reside na falta de procura, mas nas práticas de construção ainda vigentes.
Informalidade alta e queda na produtividade
Um estudo intitulado Construção no Brasil: Agenda para Modernização do Setor, elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ilustra essa realidade. De 1995 até 2024, a produtividade do setor caiu em 20,4%. Em 2024, cada trabalhador teve uma média de produção de R$ 41,3 mil por ano, menos da metade do que se observa na indústria de transformação. A produtividade do Brasil representa apenas 7% da observada nos Estados Unidos, enquanto a informalidade se mantém elevada: apenas um quarto dos profissionais tem vínculo formal. Hernando Soto, em sua obra O Mistério do Capital, argumenta que essa informalidade impede o aumento da produtividade ao transformar esforços em “capital morto”, já que os trabalhadores informais não têm acesso a crédito e não conseguem escalar suas operações.
O diagnóstico apresentado é claro. Para a CNI, a baixa produtividade é resultado da alta taxa de informalidade, da falta de qualificação adequada entre os trabalhadores, da lenta adoção de tecnologias digitais e da escassa implementação de métodos modernos de gestão. Durante anos, a grande oferta de mão de obra disfarçou ineficiências no setor. Problemas como retrabalho, desperdícios e improvisações se tornaram comuns quando deveriam ser exceções.
Soluções através da industrialização e tecnologia
Para reverter esse quadro, é fundamental adotar uma nova abordagem. A industrialização na construção, utilizando estruturas metálicas, concreto pré-fabricado e outros sistemas industrializados, pode diminuir prazos, reduzir desperdícios e cortar custos. No entanto, a verdadeira mudança deve ocorrer antes mesmo do início das obras.
Ferramentas como o BIM possibilitam a integração dos projetos, identificação antecipada de incompatibilidades e planejamento mais preciso da execução. A construtibilidade complementa esse processo ao unir projeto e execução, criando empreendimentos mais fáceis de construir com logística aprimorada, padronização e maior produtividade. Quando o planejamento para execução é levado em consideração desde a fase conceitual do projeto, o improviso torna-se algo excepcional e a eficiência passa a ser uma realidade.
A construção civil brasileira deve deixar para trás a mentalidade artesanal e incorporar uma perspectiva industrial fundamentada em planejamento rigoroso, tecnologia avançada e integração efetiva. Modernizar o setor representa não apenas uma chance de aumentar a produtividade; é essencial para reduzir custos, elevar a competitividade e atender às necessidades habitacionais e infraestruturais do país. O futuro da construção começa muito antes do primeiro bloco ser assentado: inicia-se na maneira como cada projeto é idealizado.