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Uma Mensagem para o Mestre Bituca

Bituca, esta crônica altera a sequência que eu havia decidido seguir no início desta série. Cronologicamente, ainda não era o momento apropriado. Contudo, há acontecimentos que não podem ser ignorados e que se impõem, como a notícia de sua saída do hospital, em recuperação após uma pneumonia. Decidi que era pertinente escrever para você agora, antes que a urgência do momento se dissipasse.

Assim como você, sou natural de Minas Gerais e meus ancestrais também têm raízes nessa terra. Embora tenha crescido longe das montanhas, fui cercado pelo sotaque característico, pelo queijo delicioso, pelo carinho autêntico e pelo aroma da comida feita no fogão à lenha durante as visitas à casa da minha avó. Lembro-me da rosca de nata que ela guardava com o cuidado de quem protege uma relíquia.

A primeira vez que ouvi sua voz é um mistério para mim. É curioso dizer isso sobre alguém que já fazia parte do meu cotidiano sem aviso prévio, como o tique-taque do relógio na sala. Na minha adolescência, a música “Coração de Estudante” tomou conta do Brasil no dia da morte de Tancredo Neves, outro ícone mineiro. Sua voz tornou-se a trilha sonora de um luto nacional. Naquele tempo, eu estava mais voltado ao rock paulistano e ao pop norte-americano. Não percebi sua presença silenciosa; você entrou pela porta dos fundos e se instalou como um membro da família.

Logo o saxofone passou a fazer parte da minha vida, trazendo um novo modo de ouvir tudo ao meu redor. Comecei a notar o som desse instrumento em diversas músicas: no Kid Abelha, em Men at Work, no chorinho e até mesmo no susto ao escutar o saxofone em “Your Latest Trick” do Dire Straits interpretado por Michael Brecker, quem eu viria a conhecer pessoalmente anos mais tarde. Explorei o rock progressivo do Pink Floyd até que inevitavelmente me deixei levar pelo jazz através de “In the Mood” da orquestra de Glenn Miller.

O jazz me conquistou de uma maneira que nenhum outro estilo musical conseguira. Durante essa jornada musical, reencontrar você foi uma grata surpresa no álbum “Native Dancer”, de Wayne Shorter. Foi nesse momento que realmente ouvi sua música pela primeira vez. Depois vieram seus outros trabalhos; o disco ‘Angelus’, gravado nos EUA com grandes músicos do gênero, me apresentou a Bob Mintzer, uma das minhas maiores influências, quem também encontrei pessoalmente anos depois para gravar um DVD.

Você também esteve presente nas minhas aulas de saxofone no Rio de Janeiro com Widor Santiago, músico que tocou ao seu lado por muitos anos. Foi por causa dele que decidi seguir a carreira musical profissionalmente. Talvez tenha herdado algumas coisas suas que nem mesmo Widor sabia estar me transmitindo.

Anos depois, enquanto cursava meu mestrado nos Estados Unidos, tive a oportunidade única de visitar Wayne Shorter em sua casa. Ele falou sobre você com carinho, como se fosse um irmão. Essa visita gerou dias em que fui tratado como mentiroso na universidade: sem celular à disposição para comprovar nada até que as fotos reveladas mostrassem realmente que almocei com Wayne. Existem histórias que só acontecem porque naquela época ainda era necessário ter paciência para acreditar nelas.

Após esse encontro, tive várias interações com músicos da sua banda e companheiros do seu passado musical, inclusive tocando em um quarteto jazzístico que abriu seu show em São Paulo. No entanto, foi numa conversa sobre o som do Clube da Esquina com o violonista e professor Ivan Vilela que algo dentro de mim mudou profundamente. Voltei a explorar toda a sua obra na tentativa de conectar-me com um lado mineiro dentro de mim que nunca havia despertado antes; sou mineiro por origem, mas não por vivência.

E assim começaram os sonhos!

Eram sonhos vívidos e repletos de narrativa própria que me acompanhavam durante todo o dia após acordar. No primeiro deles, você aparecia à distância: tão longe que mal conseguia vê-lo, mas ouvia sua voz cantando em falsete, como um som celestial vindo dos anjos. Acordei tomado por essa experiência onírica. Os sonhos seguintes foram como um longo roteiro de aproximação e admiração; foram cinco anos assim—cinco anos sentindo uma saudade difícil de descrever: como se pode sentir falta de alguém com quem nunca convivi?

Procurei respostas onde pude encontrar; conversei com monges e abri meu coração para amigos seus. Nivaldo Ornellas, amigo da sua juventude, me disse com simplicidade — típica daqueles que viveram intensamente — que você entenderia tudo isso. Seu filho Augusto, mesmo sem me conhecer bem, foi generoso comigo; trocamos mensagens nas redes sociais e nos encontramos duas vezes durante seus shows em São Paulo — sempre educado e com aquele sorriso caloroso. Contudo, algo dentro de mim hesitava quando pensava em abordar esse assunto com ele; assim acabaram ficando essas conversas não ditas.

Certa manhã acordei após mais um sonho e soube intuitivamente — sem precisar explicar — que era o último: eu estava no palco tocando ao seu lado. Não trocamos palavras; nossa comunicação se deu através da música e dessa mineirice compartilhada entre nós — uma língua sem necessidade de dicionário.

A última vez em que te vi ao vivo foi durante seu show “A Última Estação”, em São Paulo, pouco antes da minha mudança para o Espírito Santo. Mais uma vez não nos encontramos; você estava na sala adjacente ao camarim e recuei novamente — não quis incomodá-lo. Permaneceram as promessas de um dia sermos conectados por alguém; soube até que você permitiu minha entrada através dessa conexão imaginária. Mas isso nunca aconteceu e a vida seguiu seu fluxo habitual.

Talvez alguma verdade resida nas palavras do monge sobre nós termos sido amigos em algum tempo anterior — numa dimensão onde nossas memórias não alcançam mas os sonhos sim; afinal os sonhos não envelhecem nunca! Agora enquanto você se recupera em casa carrego esse nosso encontro sonhado como lembrança querida de um amigo ainda por retornar… Porque voltará sim, Bituca! Quando esse sonho retornar talvez possamos finalmente trocar aquelas poucas palavras tão esperadas pela amizade e pela mineirice compartilhada há tanto tempo — palavras guardadas carinhosamente do lado esquerdo do peito.

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