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Redes sociais condenadas por causar danos a jovens, porém, desafio ainda maior persiste

Nesta semana, decisões judiciais nos Estados Unidos trouxeram à superfície algo que, até pouco tempo, ainda era tratado como exagero. Em julgamentos distintos, mas ocorridos em sequência, plataformas como Instagram e Facebook, da Meta, e o YouTube, do Google, foram responsabilizadas por danos a crianças e adolescentes, tanto pelo modo como operam quanto pela falha em protegê-los de conteúdos e interações que ultrapassam limites básicos.

O que essas decisões expõem não é apenas o dano, mas a forma como ele se produz. Não estamos diante de um uso inocente ou espontâneo, mas de sistemas que observam, aprendem e respondem ao comportamento do usuário em tempo real, atuando diretamente sobre aquilo que prende a atenção e sustenta o engajamento.

Leia também: A ausência de um pai não passa, e pode travar decisões pela vida inteira

Basta pensar em algo que já se tornou comum: adolescentes que, aos 14 ou 15 anos, passam a buscar conteúdos sobre envelhecimento precoce, linhas de expressão, prevenção de rugas.

A partir dessa primeira busca, não recebem uma resposta isolada, mas uma sequência contínua que amplia a preocupação: rotinas de skincare cada vez mais complexas, comparações de pele, padrões inalcançáveis. O que começa como curiosidade passa a organizar a forma como esse jovem se percebe, muitas vezes criando um problema que sequer existia.

Eu poderia parar por aqui. Mas sabemos que o cenário é mais grave. Há adultos se passando por crianças, abordagens com conotação sexual, acesso facilitado a conteúdos violentos e uma circulação constante de violência — inclusive contra mulheres. O que aparece no cotidiano é apenas a superfície de um funcionamento que pode avançar muito além disso.

Quando isso incide sobre sujeitos em formação, que ainda não dispõem de recursos psíquicos para sustentar esse tipo de experiência, o problema deixa de ser pontual. Não se trata apenas de exposição, mas de um meio que identifica fragilidades e devolve estímulos sob medida, ajustando continuamente a forma como captura quem está ali.

No livro Careless People, de Sarah Wynn-Williams, o relato de quem esteve dentro dessa engrenagem descreve o uso de dados capazes de identificar vulnerabilidades emocionais, inclusive entre adolescentes, orientando decisões voltadas ao aumento de engajamento — mesmo quando isso implica explorar fragilidades.

O que vemos agora não é o surgimento de um problema, mas o início de sua nomeação. E isso desloca a questão, porque, enquanto o debate se concentra nas empresas, uma outra cena permanece preservada: aquela em que o acesso continua sendo permitido e pouco acompanhado dentro das próprias casas.

É importante dizer: os adultos também sofrem esses efeitos. Mas o ponto aqui é outro. Trata-se da proteção de quem ainda não dispõe de recursos para elaborar o que recebe.

A ideia de que acompanhar o que um filho acessa seria invasão de privacidade ignora um dado básico: não estamos lidando com um ambiente inofensivo. Há sistemas continuamente ajustados para manter o usuário engajado. Nesse contexto, a ausência de mediação não é algo sem consequências — é uma forma de exposição.

Não se trata apenas de “tempo de tela”, mas do tipo de experiência em jogo e da ausência de um adulto que ajude a dar sentido a isso. Quando essa vivência se organiza em um meio que responde de forma imediata, reforça inseguranças e não introduz limites, algo se inscreve — e passa a participar da construção de quem esse jovem se torna.

Na clínica, isso aparece como dificuldade: jovens que se medem por padrões inalcançáveis, que não sustentam frustração, que dependem de respostas imediatas. Em situações de maior vulnerabilidade, esse contexto pode favorecer crises intensas e rupturas com a realidade.

Enquanto isso, o ambiente digital se atualiza mais rápido do que qualquer tentativa de regulação, criando um descompasso evidente.

E é nesse ponto que a questão deixa de ser apenas das empresas.

Entre proibir tudo e permitir tudo, existe um lugar mais difícil: acompanhar, compreender e intervir quando necessário. Isso exige presença — e presença não se terceiriza.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas o que as plataformas fazem.

É o que nós deixamos de fazer.

Acompanhar também passa por ações concretas: verificar o que o filho consome, entender o que aparece com frequência, com quem interage. Ferramentas de controle podem ajudar, mas não substituem aquilo que só um adulto pode fazer: interpretar, mediar e sustentar limites.

Não se trata de punir a tecnologia, mas de retomar uma posição que vem sendo perdida.

Porque não é apenas o que circula que importa, mas o modo como isso se inscreve — e a ausência, nesse processo, também deixa marcas.

Talvez já estejamos, em alguma medida, atrasados. Ainda assim, há tempo — desde que possamos retomar algo que vem sendo perdido: a capacidade de nos implicar, de nos aproximar e de sustentar uma presença que proteja aqueles que ainda não podem fazê-lo sozinhos.

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