A palavra ancestralidade é, muitas vezes, utilizada de forma solta. Não é incomum nos depararmos com a expressão em qualquer análise ou publicação que tenha como objetivo examinar o passado.
Mas e quando não sabemos exatamente onde estão fincadas as raízes? A música afro-brasileira sempre tentou preencher essa lacuna. Explorando o passado para responder de onde vem a música negra e como ela se transforma e é consumida pelo mundo.
Afinal de contas, para longe do glamour ou das bandeiras, este tipo de representação artística sempre foi, antes de mais nada, resistência e resistir não era uma necessidade apenas dos ancestrais.
Em seu novo disco “Som Sistema”, a banda Da Cruz, da cantora afro-brasileira Mariana Da Cruz, radicada em Berna, na Suíça, deixa isso bem claro. Há uma reverência ao passado, mas, principalmente, a intenção de mostrar a contemporaneidade da música negra.
Eu sou afro-brasileira, até hoje não sei de onde vieram os meus ancestrais. Essa procura foi longa, desde que vim para a Europa. Eu me joguei bastante na cena afro, queria conhecer cada cultura. Angola, Moçambique, ouvir esse som, saber como vivem, como essas pessoas se movimentam. Então fazer esse álbum foi legal por causa desse caldeirão que a gente colocou tudo dentro
Mariana da Cruz
A importância do agora
Com uma temática cosmopolita, “Som Sistema” não é nem de longe um álbum pensado para ser retrô. De acordo com a compositora, as explosões de gêneros musicais ligados à juventude, como o trap, dão a contemporaneidade de um disco lançado em 2026.
Para Mariana é importante sempre manter o contato com as transformações do mundo, acompanhando os novos agentes culturais que começam a se formar.
“O mundo está em transformação e o agora é importante. Eu acho que esse álbum é um acordão. No sentido de ‘vamos acordar, vamos levantar, nos movimentar’, ser a resistência do que estamos vivendo. Eu vejo que a recepção da galera jovem é bem bacana. Há duas semanas fomos tocar na França, e tocamos num festival de jazz. Quando as pessoas chegaram e tocamos nosso som, vi o público bem misturado: a junção do velho e do novo”, disse.
É complicado, mas juntos dá para fazer algo
Entre as faixas, inclusive, a cantora traz um certo senso de urgência. De saber que há momentos na vida em que realmente é preciso agir. Em “Tudo bem mais complicado” Mariana estabelece um diálogo com o ouvinte.
Por morar já há mais de 20 anos longe do Brasil, é necessário estabelecer uma ponte com interlocutor brasileiro. Mostrar que apesar das diferenças culturais, as semelhanças são muito mais fortes e agregadoras.
“Eu moro há muito tempo fora do país, mas meu olhar ainda é muito para dentro do país. Não só do Brasil, mas também o que acontece na Europa. Acho importante ter essa consciência das pessoas, delas poderem se manifestar nas causas sociais também. Música para mim é importante estar ligado às causas. O álbum está recheado disso tudo”, contou.
Na pista com os jovens
Os ritmos desenvolvidos no disco são comuns em pistas de dança de clubes espalhados por toda a Europa. Ainda que seja uma artista internacional, Mariana é brasileira e as músicas, portanto, são cantadas em português.
Mesmo que possa existir uma barreira linguística à primeira vista em países não-lusófonos, esse obstáculo logo cai, uma vez que a música é uma linguagem universal.
De acordo com Mariana, se conectar com os jovens é um dos principais objetivos do disco e garante: eles entendem o que é dito.
“Eu canto em português, dá a impressão de que as pessoas aqui não entendem, mas eles entendem. Quando me apresento na França, na parte alemã da Suíça, ou vou para a Inglaterra, tento falar para eles o teor das letras, porque eles ficam curiosos. Eles se transportam na batida da música e vejo que eles acabam entendendo. A música quebra essa barreira”, afirmou.
E a música contemporânea europeia também não deixa a desejar. Afinal de contas, foi de lá que o Brasil importou estilos como techno e o industrial. Ainda que por lá, esses estilos sejam bem menos comerciais do que os consumidos nas baladas brasileiras.
Esses gêneros acabaram fazendo parte também do que é consumido pelas comunidades africanas naquele continente.
Para Mariana, mergulhar nos gêneros mais diversos foi fundamental para criar a identidade do próprio som.
“Para mim foi legal sair da minha comunidade e mergulhar nesses sons. Conheci o kuduro, que vem da Angola, a Shatta, o Amapiano. Foi tão revelador: uau, por que não misturar todos esses sons? E encontrei o meu parceiro, Ane Hebeisen, que vem de uma cena mais underground, mais industrial. Foi daí que tivemos a ideia de começar uma cena mais experimental, com ritmos brasileiros e mais pesados”, contou.
E no Brasil?
Com tantas turnês internacionais, o Da Cruz já tem um jejum bem grande de passagens pelo Brasil. Apesar disso, o grupo já prepara uma passagem no nosso país para os próximos meses para trazer “Som Sistema” ao país.
No momento, a turnê ainda está em período de negociação, mas Mariana deixa bem claro seu desejo de vir para Vitória.
“Estamos em busca de alguém que faça acontecer. Não vamos ficar ricos, mas queremos os encontros. Para mim é importante tocar no meu país e trocar. Vitória eu já ouvi falar que é fantástico. Espero muito ir aí. Fomos ao Brasil em 2019 para uma turnê pequena, alguns concertos em Brasília, São Paulo, alguns clubes. Para mim isso é o melhor. Quero esses encontros, ver essas pessoas, falar com elas”, completa.