O valor reduzido do gengibre e as novas normas fitossanitárias impostas pela União Europeia podem impactar negativamente a produção do Espírito Santo em 2027. Conforme o exportador Wanderley Stuhr, os agricultores estão reavaliando o próximo ciclo de plantio devido à dificuldade de escoamento da safra atual e à necessidade de adequação às diretrizes europeias.
Para auxiliar nesse processo de adaptação, o governo estadual está mobilizando órgãos públicos e representantes do setor agrícola, além de habilitar profissionais técnicos e iniciar o registro das unidades produtivas.
A preocupação se concentra no principal mercado internacional para o gengibre capixaba. Dados do governo estadual indicam que a União Europeia importou 16,3 mil toneladas do produto em 2025, gerando uma receita de US$ 23,7 milhões. O bloco europeu respondeu por 57,1% do volume total e 58,6% da receita das exportações de gengibre oriundas do Espírito Santo.
Além das novas exigências sanitárias, o setor também enfrenta concorrência acirrada no cenário internacional. Stuhr mencionou que o preço da caixa caiu de cerca de R$ 60 em 2025 para aproximadamente R$ 30 atualmente, representando uma queda de 50%.
“A China está oferecendo muitos produtos a preços baixos, enquanto a demanda continua fraca e complicada”, destaca o exportador.
Com a dificuldade em encontrar compradores, há a possibilidade de parte da produção não ser colhida nesta safra, conforme projeções de Stuhr. Ele acredita que essa situação, aliada às novas exigências da União Europeia, pode levar os produtores a optarem por uma área menor na próxima safra.
Iniciativas governamentais
O governo estadual está promovendo ações voltadas para ajudar o setor a atender as novas regulamentações e garantir o acesso ao seu principal mercado externo. Entre as medidas estão orientações técnicas, cadastramento das propriedades e certificação sanitária. O secretário da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Enio Bergoli, enfatiza que essa iniciativa envolve todos os elos da cadeia produtiva.
“Conseguimos integrar governo federal, órgãos estaduais, produtores e exportadores com responsáveis técnicos, avançando desde a orientação até o diálogo com a Missão do Brasil junto à União Europeia em Bruxelas”, acrescenta ele.
Regulamentações para entrada das cargas
As novas diretrizes começarão a valer em 15 de outubro de 2026 e têm como objetivo prevenir a entrada da bactéria Ralstonia pseudosolanacearum no bloco europeu. Essa mudança foi motivada pela detecção da bactéria em gengibre e cúrcuma importados, além de surtos registrados na Europa.
Um esclarecimento obtido pelo governo estadual junto às autoridades europeias especifica que os exportadores devem estar atentos a esse prazo. A data estipulada refere-se à entrada das cargas no território europeu e não ao envio realizado no Brasil ou à emissão da certificação. Portanto, todas as remessas que chegarem ao bloco após essa data deverão se adequar aos novos requisitos fitossanitários.
Essa informação foi confirmada pela direção-geral da Saúde e Segurança dos Alimentos da Comissão Europeia (DG Sante), após discussões com o Governo Federal e com a Missão do Brasil na União Europeia.
De acordo com as novas normas, o gengibre poderá ser enviado apenas de países ou áreas reconhecidas oficialmente como livres da bactéria. Outra alternativa será a produção em locais registrados sob supervisão das autoridades fitossanitárias, incluindo inspeções antes da colheita e análises moleculares dos produtos para garantir rastreabilidade.
O Espírito Santo está livre da bactéria?
Stuhr afirma que não há evidências da presença da bactéria nas regiões produtoras do Espírito Santo; no entanto, destaca que é fundamental comprovar oficialmente as condições sanitárias requeridas. “Essa exigência afeta diretamente quem vende para a Europa. Os produtores estão conseguindo se adaptar, mas isso demanda bastante esforço”, comenta ele.
O Espírito Santo conta com aproximadamente 3,5 mil produtores de gengibre; cada propriedade precisará passar pelo processo individualmente para se adequar às exigências.
Atividades em andamento
A preparação do setor produtivo para obtenção da certificação fitossanitária envolve diversas entidades como o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) e o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), além dos próprios produtores e cooperativas.
Conforme informações do governo estadual, os avanços incluem a implementação dos procedimentos relacionados à bactéria e a realização de cursos para habilitação dos responsáveis técnicos. Atualmente, são 29 profissionais capacitados para atuar nesse contexto.
Após essa capacitação inicial, teve início o cadastramento das Unidades Produtivas e das Unidades de Consolidação. As exigências incluem registro das unidades produtivas, um responsável técnico habilitado, monitoramento fitossanitário rigoroso, laudo laboratorial negativoe certificação comprovada quanto à origem dos produtos.
Nesse processo colaborativo, cabe ao Idaf realizar os cadastros necessários enquanto o Incaper orienta os agricultores sobre as adequações técnicas necessárias.
“Essa articulação demonstra nossa preparação para garantir a competitividade do gengibre capixaba no mercado internacional e preservar a renda das famílias envolvidas na produção”, afirma Bergoli.
Investimentos em projetos de adequação
Além das adaptações às regras estabelecidas pela União Europeia, o governo do Espírito Santo destina R$ 1,2 milhão para quatro projetos focados na cadeia produtiva do gengibre. Essas iniciativas incluem análises genéticas em diferentes altitudes visando identificar variedades mais produtivas juntamente com ações sustentáveis voltadas à qualificação dos sistemas produtivos e monitoramento fitossanitário adequado.
Desse montante total destinado aos projetos mencionados acima, R$ 400 mil serão aplicados especificamente no monitoramento e diagnóstico relativo à Ralstonia pseudosolanacearum. Este estudo prevê coletas periódicas nas três principais cidades produtoras com um total estimado de 300 amostras por campanha realizadas bimestralmente.
O trabalho incluirá ainda fornecimento de laudos fitossanitários bem como mapeamento sobre a presença ou ausência da bactéria nas lavouras. Com esses dados coletados espera-se aumentar o conhecimento sobre as condições sanitárias dos cultivos locais e reunir informações técnicas que possibilitem uma futura caracterização oficial como áreas livres dessa praga.
Esse reconhecimento dependerá ainda de comprovações técnicas adicionais. Caso seja alcançado esse status oficial poderá favorecer ainda mais a competitividade do gengibre capixaba nos mercados internacionais enquanto produtores buscam atender às exigências necessárias para manutenção dos embarques destinados à Europa.