Análises identificaram RNA viral em diferentes partes do organismo de morcegos, incluindo o feto de um animal naturalmente infectado
A presença de material genético do vírus da raiva em fêmea de morcego e no feto foi identificada em um estudo liderado por pesquisadores da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), em parceria com instituições de pesquisa e vigilância em saúde no Brasil e no exterior.
O artigo “Maternal-fetal detection of rabies virus in the vampire bat Desmodus rotundus, Brazil”, publicado no periódico internacional EMI: Animal & Environment, aborda a possibilidade de transmissão vertical, da mãe para o feto durante a gestação, ainda pouco documentada em condições naturais. O trabalho foi coordenado por Ricardo Durães de Carvalho, docente do Departamento de Morfologia e Genética da EPM.
Foram analisadas 11 fêmeas de morcegos de quatro espécies, todas grávidas, capturadas no nordeste do Brasil entre março de 2023 e janeiro de 2024, no contexto do Programa Nacional de Prevenção da Raiva, em colaboração com o Laboratório Central de Saúde Pública do Ceará (Lacen). A coleta incluiu amostras do sistema nervoso central (SNC), trato gastrointestinal, fígado e rim, além de swabs orais e retais e material fetal. A triagem inicial foi realizada com testes recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), seguida por análises moleculares e sequenciamento genético.
O material do vírus da raiva foi detectado no SNC de um Desmodus rotundus e de quatro Molossus molossus. Na fêmea da primeira espécie, esse conteúdo viral também foi identificado no trato gastrointestinal, no rim e no feto. O sequenciamento também permitiu recuperar genomas completos e parciais em diferentes amostras, com alta similaridade entre as sequências obtidas. As análises filogenéticas indicaram proximidade entre os dados da fêmea e do material fetal.
A identificação do vírus nesses materiais biológicos indica a possibilidade de transmissão durante a gestação. Os autores destacam, no entanto, que o número reduzido de amostras, incluindo apenas um indivíduo dessa espécie em período gestacional, e a ausência de testes que confirmem se o vírus está ativo e capaz de infectar limitam a interpretação dos resultados. Isso significa que o estudo detectou o vírus, mas não demonstrou diretamente se havia infecção ativa no feto.
Embora a raiva seja comumente transmitida de forma horizontal, principalmente por mordidas, o estudo contribui para a investigação de outros mecanismos envolvidos na manutenção do agente em populações de morcegos. Segundo os autores, esse tipo de transmissão vertical pode contribuir para sua dinâmica de transmissão e persistência viral, mas ainda demanda investigação com amostragem ampliada e abordagens experimentais.
A autoria principal é de Mariana Guilardi, doutoranda no Programa Interunidades de Pós-Graduação em Bioinformática da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação e coordenação de Ricardo Durães. Pela EPM/Unifesp, Bruna Slobosk, Ingrid Martins, Rodrigo Sanz Duro e Luiz Mário Janini; Larissa Sousa, do Lacen-CE; Gustavo Miranda, do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (InCor/USP); Paulo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP; Olivier Gascuel e Alexandre Hassanin, do Muséum National d’Histoire Naturelle, na França.
O trabalho foi financiado pelo programa Jovem Pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Pesquisadores envolvidos no estudo contam com apoio da Fapesp, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do programa TerrEE, da Embaixada da França no Brasil.
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