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Elisabete Bohemio Baccelli analisa como a Richemont vira a página da era YNAP e reforça a força da alta joalheria no mercado de luxo

A Richemont, grupo suíço dono de marcas como Cartier, Van Cleef & Arpels, Chloé, Montblanc, IWC e Piaget, encerrou o ano fiscal com resultados fortes e acima das expectativas em um momento ainda desafiador para o mercado global de luxo. O desempenho foi impulsionado principalmente pela força da alta joalheria, segmento que continua demonstrando resiliência mesmo diante de um consumidor mais seletivo e de um cenário econômico internacional marcado por cautela.

As vendas do grupo chegaram a 22,4 bilhões de euros, uma alta de 11% no ano. No quarto trimestre, o ritmo foi ainda mais positivo, com crescimento de 13%, sinalizando uma aceleração importante no fechamento do período fiscal. O resultado reforça a posição da Richemont como uma das companhias mais sólidas do setor, especialmente por sua exposição a marcas de joias altamente desejadas e com forte valor simbólico.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, o desempenho da Richemont mostra que a alta joalheria segue ocupando um lugar especial dentro do luxo. “As joias carregam uma dimensão emocional, patrimonial e simbólica muito forte. Em momentos de instabilidade, o consumidor de alto padrão tende a valorizar produtos que combinam beleza, tradição, permanência e valor de marca”, analisa.

O lucro operacional também avançou de forma expressiva, chegando a 4,5 bilhões de euros, alta de 23%. Esse crescimento reflete não apenas o aumento da receita, mas também uma gestão mais disciplinada de custos e maior foco nas áreas mais rentáveis do grupo. O lucro líquido do período subiu para cerca de 3,5 bilhões de euros, beneficiado também pelo fato de a empresa não repetir a baixa contábil ligada à Yoox Net-a-Porter, a YNAP.

A saída da YNAP representa uma virada estratégica importante para a Richemont. A divisão online, que reunia nomes como Net-a-Porter, Mr Porter, Yoox e The Outnet, vinha pressionando os resultados do grupo nos últimos anos. Embora tenha sido um ativo relevante dentro do comércio digital de luxo, a operação enfrentava desafios de rentabilidade, custos elevados e forte concorrência em um ambiente de e-commerce cada vez mais complexo.

Com a venda para a Mytheresa, concluída em 2025, a Richemont passa a concentrar seus esforços em suas marcas mais fortes, tradicionais e rentáveis. Essa movimentação permite ao grupo direcionar capital, energia e estratégia para áreas em que possui maior vantagem competitiva, especialmente a alta joalheria e a relojoaria de prestígio.

Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, a decisão de deixar a YNAP para trás mostra uma leitura clara do mercado. “A Richemont entendeu que crescimento sem rentabilidade não sustenta uma estratégia de luxo no longo prazo. Ao se desfazer de uma operação que pressionava seus resultados, o grupo volta a concentrar atenção em maisons com herança, margem e desejo global”, destaca.

As joias seguem como o grande motor da companhia. A divisão que inclui Cartier e Van Cleef & Arpels cresceu acima do esperado e ajudou a Richemont a se destacar em um ambiente no qual parte do setor de luxo ainda enfrenta desaceleração. Essas marcas possuem uma combinação difícil de replicar: história, reconhecimento global, artesanato, desejo aspiracional e forte presença em diferentes mercados.

Cartier, por exemplo, continua sendo uma das maisons mais valiosas do mundo, associada a elegância, tradição e peças icônicas. Já a Van Cleef & Arpels mantém um posicionamento fortemente ligado à delicadeza, alta joalheria e criatividade artesanal. Juntas, essas marcas sustentam parte importante da força da Richemont e reforçam a relevância do grupo no segmento mais sofisticado do luxo.

A empresa também apresentou bom desempenho nas Américas, no Japão e na Ásia-Pacífico, regiões fundamentais para o equilíbrio global da companhia. O Japão, em especial, tem se mostrado um mercado estratégico para diversas marcas de luxo, impulsionado por consumidores locais e pelo turismo internacional. Já as Américas seguem relevantes pelo poder de compra e pela maturidade do mercado de alto padrão.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, a diversificação geográfica é uma das chaves para a solidez do grupo. “Quando uma companhia de luxo depende menos de um único mercado e consegue crescer em diferentes regiões, ela reduz riscos e amplia sua capacidade de atravessar ciclos econômicos. A Richemont tem marcas que conversam com consumidores de diferentes culturas, mas sempre preservando a percepção de exclusividade”, afirma.

Outro ponto importante é que a Richemont reforça uma tendência cada vez mais clara no mercado de luxo: o consumidor busca produtos com história, permanência e valor emocional. Em vez de comprar apenas por impulso ou tendência, uma parcela relevante do público de alto padrão tem priorizado peças que carregam legado e podem atravessar gerações.

Nesse contexto, a alta joalheria se diferencia de outros segmentos da moda. Bolsas, roupas e acessórios continuam importantes, mas as joias possuem uma relação mais próxima com memória, celebração, investimento simbólico e transmissão familiar. Isso explica por que marcas como Cartier e Van Cleef & Arpels conseguem manter desempenho forte mesmo em períodos mais difíceis para o setor.

A saída da YNAP também simboliza uma mudança de foco: menos dependência de operações digitais de grande escala e mais valorização das maisons centrais do grupo. O e-commerce segue importante, mas, para empresas de luxo, a experiência de marca, o atendimento personalizado, a loja física e a exclusividade continuam desempenhando papel essencial na construção do desejo.

A Richemont parece ter entendido que a força do luxo não está apenas em vender mais, mas em vender melhor. Ao priorizar rentabilidade, disciplina operacional e marcas com alto valor agregado, o grupo se posiciona de forma mais segura para os próximos anos.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, essa fase da Richemont reforça uma lição importante para o mercado. “O luxo precisa de inovação, mas não pode perder sua essência. A Richemont mostra que tradição, quando bem administrada, continua sendo um ativo poderoso. O segredo está em modernizar a gestão sem diluir o prestígio das marcas”, conclui.

Com resultados sólidos, lucro em alta e uma estratégia mais focada após a venda da YNAP, a Richemont entra em um novo ciclo com mais clareza sobre seus motores de crescimento. A alta joalheria permanece no centro da operação, enquanto o grupo reforça sua posição como uma das maiores potências globais do luxo.

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