Os visitantes que chegam à Ilha das Caieiras, localizada em Vitória, geralmente se concentram na área costeira e nos restaurantes do polo gastronômico. Contudo, um mural recém-inaugurado está direcionando uma parte desse fluxo para outra área da comunidade.
As paredes do Beco do Caborê agora exibem pinturas que retratam os moradores, a fauna, a flora, a culinária local, a pesca artesanal e referências à cultura indígena. Este projeto é de autoria do artista capixaba Nico Duarte, e já vem atraindo visitantes que desejam explorar e fotografar o local.
A iniciativa vai além de meramente embelezar o beco; busca transformar a arte em um meio de contar a história da Ilha das Caieiras e desenvolver um novo trajeto turístico dentro da comunidade.
Mural traz fauna, culinária e o cotidiano da Ilha
O mural ilustra espécies como tartarugas, garças e beija-flores, além de elementos do manguezal e personagens significativos da comunidade. As representações também aludem à prática da pesca artesanal e à gastronomia local, celebrando as famílias que contribuíram para a formação do bairro.
No painel, buscamos representar a cultura local, incluindo aspectos da culinária, tradições indígenas, fauna e flora da Ilha das Caieiras. Tentei trazer um pouco do cotidiano deles para essa obra.
Nico Duarte, artista
Antes de criar os desenhos, Nico e sua equipe visitaram o Beco do Caborê para dialogar com os moradores. O objetivo era garantir que a obra não transmitisse uma visão genérica da área.
Conforme Nico menciona, as narrativas compartilhadas durante essas visitas foram essenciais para o desenvolvimento inicial do projeto. À medida que avançavam na pintura, outros elementos foram adicionados conforme surgiam objetos e situações típicas do cotidiano no beco.
“O propósito do projeto é exatamente esse: capturar a história local e trazê-la para o mural. Visitamos os moradores para entender sua cultura e gastronomia antes de elaborar o projeto”, explica.
Cinco colaboradores contribuíram com a pintura
O mural foi criado ao longo de cerca de quatro dias. Além de Nico, cinco colaboradores diretos participaram da execução da obra. O trabalho também contou com a supervisão de um coordenador e um monitor oriundo da própria comunidade.
A presença dos moradores permitiu ajustes na obra durante seu desenvolvimento. A intenção não era apenas pintar uma parede, mas sim construir uma representação que os residentes pudessem reconhecer como parte de seu próprio território.
Tia Laura é homenageada no centro do mural
Dentre as figuras retratadas no mural está Tia Laura, cuja trajetória se entrelaça com as origens da Ilha das Caieiras. A escolha de seu rosto para figurar na obra conecta este novo atrativo turístico à memória daqueles que ajudaram a edificar a comunidade.
O Conexão Caieiras visa referenciar tia Laura como nossa grande homenageada por ter sido a primeira presidente comunitária do nosso bairro. Ela também é pioneira no desafio do siri e uma referência educacional em nossa região.
Tatyane Queiroz
A homenagem ocorreu enquanto ela ainda estava viva, pois para ela o retrato simboliza também a preservação da ancestralidade de uma família fundamental na construção da comunidade.
Da infância em Jesus de Nazareth aos trabalhos em 12 países
A conexão de Nico com elementos marinhos começou muito antes de iniciar sua carreira artística. Crescendo em uma família de pescadores em Jesus de Nazareth, em Vitória, ele foi cercado por referências semelhantes às encontradas na Ilha das Caieiras.
Suas obras frequentemente incluem tartarugas, golfinhos e comunidades ligadas ao mar. Mesmo quando trabalha fora do Brasil, o artista procura incorporar essa identidade em seus murais.
Nico teve seu primeiro contato com o grafite em 2008. Naquele período conciliava seus desenhos com estudos e um estágio enquanto também frequentava aulas sobre grafite. Ele cursou Engenharia Civil por seis anos antes de optar por dedicar-se integralmente à arte.
Estudei Engenharia Civil por seis anos mas optei por seguir minha carreira artística porque estava dando mais certo. Hoje me sinto muito mais feliz realizando algo que sempre desejei: viajar e conhecer o mundo.
Nico Duarte
O artista já teve oportunidade de pintar em 12 países diferentes. Ele compartilhou estar se preparando para uma viagem à China e revelou que nunca imaginou sair de Jesus de Nazareth para levar seu trabalho ao redor do mundo.
Iniciativa cria circuito artístico em sete comunidades
O mural localizado no Beco do Caborê faz parte de um projeto abrangente que abrange murais em sete comunidades na capital:
- Jesus de Nazareth;
- Jaburu;
- Bonfim e Bairro da Penha;
- Romão;
- Ilha das Caieiras;
- Cruzamento;
- Caratoíra.
Conforme informa Leandro Mello, coordenador-geral do projeto, esta proposta foi desenvolvida junto à Secretaria de Estado da Cultura, visando estimular o turismo comunitário e experiências turísticas nas áreas periféricas.
Ao contrário de simplesmente levar os visitantes a admirar as pinturas, o circuito tem como meta aproximá-los das histórias locais, gastronomia e modos de vida dos habitantes dessas áreas.
Leandro menciona que já houve interesse por parte de moradores de outras regiões solicitando novos murais. A expansão do projeto está nos planos futuros, mas requer um planejamento cuidadoso.
“Nosso sonho é realizar isso em todas as comunidades de Vitória ou mesmo no Espírito Santo inteiro. Contudo precisamos esperar um tempo”, afirma o coordenador.
Mural convida visitantes a explorar além dos restaurantes
Para Tatyane Queiroz, um dos principais impactos dessa obra é incentivar os turistas a conhecerem áreas menos exploradas da Ilha das Caieiras que normalmente não estão nos roteiros tradicionais.
.block-paragraph’>Essa família tem sua representatividade estampada nas paredes; sua ancestralidade é preservada através dessa arte que narra sua história enquanto se transforma em um novo ponto turístico. Isso trará mais alternativas aos nossos visitantes.
Tatyane Queiroz
.block-paragraph’>A guia destaca que muitos turistas tendem a permanecer na zona dos restaurantes; contudo, o mural expande esse circuito permitindo que mais famílias locais e pequenos comerciantes sejam incluídos nesse movimento turístico crescente.
.block-paragraph’>A expectativa é que o Beco do Caborê torne-se um importante ponto turístico consolidado ajudando a transformar várias partes da Ilha das Caieiras numa galeria artística ao ar livre.