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Para que seu filho não sinta constrangimento ao se divertir

Férias escolares pedem inovação. Após alguns dias de recesso, já organizamos passeios, pensamos em atividades, contamos com a ajuda dos avós e começamos a perceber que as aulas vão além do simples ensino da matemática.

Foi com essa mentalidade que decidi assistir a Toy Story 5. Minha expectativa era encontrar Woody, Buzz e algumas piadas voltadas para os adultos, além de tempo suficiente para justificar a compra da pipoca. E encontrei tudo isso. O filme é encantador: divertido, leve e inteligente. No entanto, ao sair do cinema, minha reflexão ia além dos brinquedos e se voltava para as crianças que começam a sentir vergonha de brincar.

Bonnie, uma menina de oito anos, ainda gosta de se divertir brincando. Contudo, o dilema surge quando ela percebe que suas amigas parecem ter perdido o interesse por essas atividades. Elas preferem as telas, as interações mediadas por dispositivos e os códigos de um grupo que Bonnie tenta desesperadamente integrar. Não é necessário que alguém lhe diga para guardar os brinquedos; a mensagem é clara mesmo sem palavras: para ser aceita, é melhor deixar um pouco da infância para trás.

Efeitos da tecnologia e desejo de pertencimento

O tablet que chega à vida de Bonnie é atraente, funcional e proporciona entretenimento contínuo. Gradualmente, ela se torna tão absorvida pela tela que se distancia do mundo ao seu redor. Os brinquedos assistem a esse fenômeno com a perplexidade de quem percebe ter sido substituído por uma máquina.

Embora haja um tom humorístico nisso, a cena é familiar para muitos pais que já chamaram seus filhos várias vezes apenas para receber como resposta um movimento de cabeça vazio e sem sinais de atenção.

Poderia ser fácil transformar o filme em uma crítica à tecnologia. No entanto, essa não é a parte mais interessante da narrativa. A tela não apenas compete com os brinquedos; também oferece a Bonnie uma oportunidade de pertencimento. É através dela que a menina procura se conectar com o grupo e entender o que deve fazer para ser aceita. O desafio vai além do tempo que uma criança passa em frente ao aparelho; trata-se do quanto ela está disposta a renunciar de si mesma para evitar a solidão.

Crescimento e pressão social na infância

No ambiente clínico, essa renúncia se manifesta de maneiras menos cinematográficas. Crianças afirmam que não gostam mais de bonecas ou carrinhos — brincadeiras que antes eram queridas por elas. Declarações como “isso é coisa de bebê” vêm carregadas de convicção, mas muitas vezes não resistem à privacidade momentânea e à liberdade encontrada em um espaço seguro.

Quando se sentem confortáveis, elas retornam a criar histórias, interpretar personagens e brincar como se nunca tivessem deixado essas atividades para trás. Muitas ainda têm interesse; descobriram apenas que expressá-lo pode ter implicações sociais.

Crescer envolve abrir mão de certas coisas — isso é natural. O problema surge quando amadurecimento é confundido com constrangimento. Uma criança pode genuinamente perder o interesse por algo ou optar por outras formas de diversão. No entanto, esconder-se por medo do ridículo é outra questão. Nesse caso, ela não está avançando; está aprendendo a reprimir suas preferências em prol da aceitação alheia.

A rejeição entre crianças merece nossa atenção cuidadosa. Nem toda dificuldade em se integrar equivale a bullying; rotular qualquer conflito dessa forma não ajuda em nada. Contudo, existem situações nas quais o grupo impõe regras sobre como uma criança deve se vestir, falar ou brincar para não ser alvo de zombarias. A violência não reside apenas nos insultos diretos; aparece também quando uma pessoa sente necessidade constante de vigiar sua própria espontaneidade para permanecer perto dos outros.

No filme, há outra menina que enfrenta desafios semelhantes, mas não tenta mudar tanto quanto Bonnie. Quando elas se encontram, sua amizade brota justamente do que anteriormente era motivo de vergonha mútua. Essa nuance na história revela que Bonnie passa muito tempo tentando agradar aqueles que esperam que ela mude enquanto encontra conexão verdadeira naqueles momentos em que pode ser autêntica.

Comunicação familiar e o fim da infância

Os pais nem sempre notam essa dinâmica sutil. Quando um filho chega em casa afirmando não gostar mais de alguma atividade ou roupa, muitas vezes interpretamos isso como sinal de crescimento pessoal. Em alguns casos isso é verdade; em outros contextos “não gosto mais” pode significar “riram de mim”, “ninguém mais faz isso” ou “tenho medo da rejeição”. As crianças nem sempre conseguem articular essa diferença claramente. Por isso, antes de celebrarmos seu crescimento aparente, devemos investigar se realmente evoluíram ou apenas aprenderam a ocultar suas verdadeiras vontades.

Toy Story 5 representa uma excelente opção para as férias escolares não só por seu valor entretenimento — pois realmente diverte — mas também porque proporciona uma rara oportunidade de diálogo entre pais e filhos sem parecer uma reunião formal.

Ao sair do cinema, ao invés de perguntar somente se gostaram do filme, vale explorar questões sobre Bonnie: o motivo pelo qual ela deseja tanto fazer parte daquele grupo ou se já tiveram experiências semelhantes onde fingiram desinteresse por algo querido para evitar serem diferentes. Pode ser que suas respostas sejam escassas ou reveladoras sobre algo que nunca tivemos coragem de perguntar.

Pode-se discutir sobre o tempo gasto nas telas e como isso afeta as crianças fisicamente e emocionalmente enquanto elas assistem passivamente ao conteúdo apresentado nelas. Mas é essencial ir além disso: ensinar aos pequenos que pertencer a um grupo não deveria requerer o abandono das características pessoais que nos tornam únicos.

Os pais costumam temer o momento em que seus filhos deixarão as brincadeiras infantis para trás. Contudo, eu atentaria mais cedo para quando eles começam a esconder suas brincadeiras devido ao receio do julgamento alheio sobre sua infância ainda presente neles. O fim da infância não ocorre apenas quando os brinquedos são guardados; às vezes ele acontece antes mesmo no instante em que uma criança aprende a sentir vergonha do que ainda ama fazer por conta das expectativas dos outros.

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